sábado, 19 de junho de 2010

ilusão

Estava bastante escuro.

Apesar da luz oriunda dos poucos postes, eu só conseguia enxergar o contorno das árvores e dos arbustos à minha frente, além, é claro, da grade que me prendia. Essa eu enxergava nitidamente.

No fundo, um violão doce e melancólico tocava suavemente "stairway to heaven", o que me tranquilizava.. como sempre.

O barulho de folhas estalando ecoou pela penumbra da noite.

Inconscientemente fiquei em alerta. "OK, vamos parar com esse complexo de perseguição. Não tem como alguém pular pela grade...". Mas a grade não era um muro e o maior problema era que me vissem alí.

A causa dos estalos apareceu, ou melhor, o causador deles. O vulto não era de todo sombrio. Vestia uma camisa branca e sorria, não de forma maliciosa, mas de forma... livre. Parecia estar curtindo "la vie boheme".

Passou direto, correndo. Moreno de belas costas, usava óculos e poderia ser... droga, se a escuridão me deixasse ver melhor...

"Foi-se. Não voltou. Não me viu. Não sei se isso é bom ou não. As grades me prendem ao mesmo tempo que me protegem."

Silêncio.

Risos abafados... mais passos, dessa vez mais rápidos. Não devia ser só um.

Por trás da velha mangueira da minha infância, surgem mais dois vultos, os donos dos risos.

O da frente -cabelo bagunçado caindo nos olhos, peito pra frente e braços abertos- saltava uma das grandes raízes já expostas da antiga árvore... por um momento pensei que ele fosse cair (se fosse eu teria caido). Porém, o ser estranhamente familiar saltava com uma certa habilidade e elegância, como se tivesse feito isso por toda a vida. Sorria, rosto ao vento (cabelo ao vento).

Dizer que parecia um leão atacando não é ser leal à visão. Um cervo correndo pelo campo seria mais ultrajante ainda... Talvez um anjo da noite,fazendo uma curva pelo ar,se enquadraria melhor.

O terceiro era um pouco mais baixo e seguia o da frente. Tinha alguns músculos à mostra. De todos, deveria ser o mais forte.

Também corria e saltava, porém não com a mesma entrega. Parecia rir do estado do outro, afinal, era raro ver o colega assim... leve.

Com passos abafados, passando pelas folhas, os dois corriam como se quisessem desafiar o vento. Dois seres encantados, se divertindo com uma coisa tão boba, tão banal.. devia ser o efeito do.. daa..... da fada verde?

As notas das cordas iam seguindo os passos daqueles seres, como uma versão obsoleta de "Sonho de uma noite de verão".

Infelizmente a esquina chega. Param.

Param porque encontram o primeiro ser, o primeiro alucinado.

E agora, fazem o que?

...

Pra minha surpresa, se abraçam. Os três ao mesmo tempo. Sem dizer palavra... Não precisavam dizer. Apenas sorriam.

...

Já começam a voltar pro lugar de onde vieram (onde?).

Os três...

Abraçados (como coleguinhas de escola primária).

Dessa vez sem correr.

Sorrindo, é claro.

...

Silêncio.
Foram-se.

A brisa noturna e gelada me traz à realidade fria e maçante. A friagem corta minhas bochechas. A música acabara. Eu já estava de volta... pra trás das grades.

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