terça-feira, 12 de outubro de 2010

ela não sabe gritar

"Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade - para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim."
"Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma."
"Pareceu-lhe que o espelho baço e escurecido não refletia imagem alguma. Sumira por acaso a sua existência física?"
"Ela era de leve como uma idiota, só que não o era. Não sabia que era infeliz. É porque ela acreditava."
"Não fazia perguntas. Adivinhava que não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um 'não' na cara? Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim."
"Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço."
"A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava."
"Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável."
"Ela falava sim, mas era extremamente muda."
"Então defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar."
"Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser."
"E achava bom ficar triste. Não desesperada, pois isso nunca ficara já que era tão modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romãntica. Claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer. Era uma neurose que a sustentava, meu Deus, pelo menos isso: muletas (...) É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro."
"Tinha saudade de quando era pequena - (...) - e pensava que fora feliz."
"Sim, ela era alegrezinha dentro de sua neurose."
"Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser."
"A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em 'eu sou eu'. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. (...) Pensando bem: quem não é um acaso na vida?"
"Sim, quem espera sempre alcança. É?"

Carice Lispector

Nenhum comentário:

Postar um comentário