Abriu a gaveta, pegou a escova e começou a se pentear.
Era essa a sua rotina matinal.
As cerdas preparavam-na para as surpresas do dia-a-dia, ou, em caso pior, a falta delas.
Antigamente não tinha paciência com os fios, arrancava-os com muita força, mas depois descobriu como é bom sentir as cerdas em sua cabeça.
O propósito daquilo nunca fora o de deixar os cabelos bonitos, afinal, isso seria impossível. Sua mania nervosa de passar a mão pelas madeixas o impedia de ficar no lugar.
Irregular. Ela até gostava.
Aí lembrou. Foi bom.
...
Nem percebeu, como sempre.
Se olhou no espelho e viu um sorriso, sorriso bobo. Percepção tardia.
O reflexo logo se obscureceu e disse:
-- Tire esse sorriso idiota da cara. Você é mais forte que isso.
Inspirou profundamente, deixou a escova de volta à gaveta e saiu repetindo para si mesma, "Sorriso idiota." - também como uma rotina.
E então ia toda adulta dizendo que podia esquecer.
Mas não podia
- ela sabia, não queria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário