domingo, 2 de setembro de 2012

Emma

"Permaneceu  perdida em seu assombro, tendo consciência de si mesma pelas batidas de suas artérias que ela julgava ouvir fluir como uma ensurdecedora música que enchia o campo. O solo, sob seus pés, era mais mole do que uma onda, e os sulcos pareceram-lhe imensas vagas escuras que rebentavam. Todas as reminiscências, as ideias que havia em sua cabeça, escapavam-se ao mesmo tempo, de uma única vez, como os mil pedaços de um fogo de artifício. Viu seu pai, o gabinete de Lheureux, o quarto de hotel, uma outra paisagem. A loucura assaltava-a, teve medo e chegou a controlar-se, mas confusamente, é verdade; pois não lembrava a causa de seu horrível estado, isto é, a questão do dinheiro. Sofria somente em seu amor e sentia sua alma abandoná-la com aquela lembrança, como os feridos, ao agonizar, sentem a existência esvair-se por sua chaga que sangra." (Madame Bovary, pg. 387 - Gustave Flaubert)

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