domingo, 8 de março de 2020

A mímica, o palhaço e os dizeres da parede

Ela sempre teve medo de palhaços
Quando cedo,
Quando menina, congelava,
Se algum do circo a chamava

Mas não era por isso, só

Que do Pedro, ela tinha medo

Ele veio uma vez

Ela caiu outra vez

“Um dia você é minha,

Outro dia, não mais”
Dizia a parede

E quanto mais a parede gritava.

Mais a menina congelava.

Quando viram o filme doido

Ele falou
“Eu acho que ele fura o olho”
O olho em troca do amor
O medo em troca do amor
Com medo, ela disse que não
Com amor, parecia, ele disse que sim
Mesmo assim, ela ficou na ilha
Porque coisa da sua cabeça,
certamente, seria

Era ela e mais 3

Mas só com ela, era sem
Ele nem lembrava
E talvez fosse mentira

Depois, não se sabe, ao certo, quando

Os corpos se afastaram
Se foram

O tempo passou,

graças a Deus, o tempo passa
E a menina quis achar que também não lembrava
Que já curava, que já fechava

Mas um dia, ela sonhou que ele voltava de uma porta

Uma porta do além
luminoso-além,
que ele fechava
Foi falar com ele,
Vai que era daqueles sonhos que às vezes davam as caras
E tinha sido
De uma certa cirurgia
Da anestesia
Ele acordava
Anestesiado, do além,
Ele voltava

Ele voltava

Ele veio
outra vez
mas com empenho

mais uma vez

ela caiu

Mas dessa vez,

Ela tentou dar amor, em vez de medo
Mas o amor, já estavam dando...
“Conheci depois de você, daquele mesmo jeito”
Depois de você
Do mesmo jeito

A menina ficou triste

Mas também ficou feliz
E pra si mesma, disse:
“Pelo menos, ele... assim feliz"

Graças a Deus o tempo passa

E a menina quis achar que tinha encontrado mais um palhaço
Mas era daqueles falsos
E mesmo custando tanto, ela teve que achar força pra desfazer o laço

Dalí não muito tempo;

O palhaço-primeiro,
E Verdadeiro
voltava

O sorvete e Brasília

Carinho, canto e poesia
Mas o medo já existia
Imagina agora, com esse dia?

Lembra,

Quando menina, congelava, se o palhaço do circo a chamava
Mas sua avó, sempre dizia:
"Ter fugido com o circo, eu queria"

Então ela foi

E assim, se foi

Descobriu que era mímica

A calavam, muitas lutas
E era por isso que quando a parede gritava
as palavras congelavam uma a uma

Quando conseguiu dar amor, deu moral, deu valor, quase falou

Muito glitter, maior calor
4 vezes ela amou

Na hora de ir embora

Escapuliu
“Amo você”
Mas só ela que viu

E uma hora, não conseguiu

Porque amor demais, ela viu

E de novo veio o medo

Tarde demais

Ele teve que partir

Ela teve que ficar
Tiveram que lembrar
de não se apegar
E o quase congelar

Mas ela só queria tentar

Amar,
falar,
chorar

Ser palhaça

Talvez ser piada
Ser choro e ser palavra

Mas o tempo gosta de pregar peças

E dessa peça ele não perdoa

Quando ela viu que tinha a dizer,

Mais alto que os dizeres da parede,
Se tocou
O tempo voou
E teve que ser com amor,
mas sem apego, sem ego, sem dor

Não teve tempo de ser palhaça

Mas lembrou
Ciganos, andarilhos, no nosso sangue, nossa raça

“Só o tempo pode nos dizer que caminho a seguir”


Entraram na roda-dança

Partiram com confiança
Para numa outra ciranda entrar

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