sábado, 6 de novembro de 2010

o tédio da volúpia pelo encanto da felicidade

"o egoísmo pela moral, a honra pela probidade, os usos pelos princípios, as conveniências pelos deveres, a tirania da moda pelo império da razão, o desprezo à desgraça pelo desprezo ao vício, a insolência pelo orgulho, a vaidade pela grandeza de alma, o amor ao dinheiro pelo amor à glória, a boa companhia pelas boas pessoas, a intriga pelo mérito, o espirituoso pelo gênio, o brilho pela verdade, o tédio da volúpia pelo encanto da felicidade, a mesquinharia dos grandes pelas grandeza do homem."
Robespierre, 5 de fevereiro de 1794

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

egoísmo

ei,
você não terminou de me curar.

então..
por favor,
não me deixe com mais buracos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

o apanhador de desperdícios

"Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios."

Manoel de Barros

terça-feira, 26 de outubro de 2010

então talvez... a lua não seja tão má assim.

domingo, 24 de outubro de 2010

o lirismo dos bêbados

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
                                                                                           
                                                                                            Manuel Bandeira (1886 - 1968)

manifesto antropófago

"Tupi, or not tupi that is the question."
Oswald de Andrade (1890 -1953)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Apoteose

meu "Deus" habita minha mente,
minha mente é minha alma
e a mente domina a matéria.

meu cérebro, seu santuário,
meu corpo, sua casca.

o Universo é um espelho,
meus pensamentos são os reflexos,
felizmente, ou infelizmente,
as palavras têm poder.

"Eu, triste com a morte de Clarisse, e a natureza pouco ligando"

                 A morte de Clarice
Enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju
(e o clarão do teu olhar soterrado resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores no vento
mostravam alegremente que não dependem de nós.
                                                          
                                                                  "Na vertigem do Dia", do livro "Toda poesia", de Ferreira Gullar


Um dia antes do seu 57º aniversário, a escritora Clarice Lispector morreu, no Rio de Janeiro, no dia 9 de dezembro de 1977, vítima de câncer no ovário.

(eu também nasci dia 10 de dezembro)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

(des)vantagem

"Felizmente o ser humano é facilmente adaptável."
Não pode ser infelizmente?

cigarras

Anunciam a chegada da primavera.
"Despertam" depois de 17 anos para viver cantando.. e cantam até morrer.

NÃO É TÃO BONITINHO ASSIM!

Cigarras não cantam, chiam.
Cigarras literalmente brotam da terra como se viessem do inferno.
A cigarra que você vê voando agora é tão velha quanto você.
São como ovelhas, quando uma começa a cantar (chiar), logo um coro completo pode ser ouvido.
Têm asas e voam como cegas (cigarra tem olho??).
Como se não precisassem das asas, pulam feito grilos pra cima de você.
Parecem baratas descascadas pela metade (já vi uma cigarra verde! o.O)
Podem chegar ao tamanho de um sapo (EU NÃO ESTOU BRINCANDO).
Como se não bastasse o "canto", o barulho das asas batendo é excruciante.
Grudam em grades e não saem até explodirem de tanto chiar.
Deixam suas "cascas" nojentas por aí.
Enquanto vivas e fora da terra, se reproduzem como loucas, ou seja, não importa que elas desapareçam por enquanto, você sabe que ano que vem elas virão de novo e daqui a 17 anos também!!
E, acima de tudo/resumindo tudo IRRITAM!

As cigarras morrem quando estão em lugares fechados.. e por ser uma questão de minutos, não é por falta de alimento. Elas simplesmente lutam em vão para tentar sair (mesmo quando até uma minhoca conseguiria sair), e quando percebem que não vão conseguir, simplesmente param de tentar, desistem, param de cantar e... morrem. É tudo bem rápido.

Conclusões:
1) cigarras são cegas.
2) cigarras não podem ser domesticadas (eu não tentei fazer isso).                

¬¬

Mart: né?
...

Mart: né?
.
.
.
(meia hora depois)

Paulie: eita, foi mal.
          é q eu fui matar uma cigarra.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

o nada

o que você faz quando não tem nada pra fazer?
Meu pai foi pra Belém.
Trouxe um shampoo legal e mais uns bombons.
Descobri que não gosto de cupuaçu.
Quem se importa?
bloqueio, bloqueio, bloqueio, bloqueio.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

ela não sabe gritar

"Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade - para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim."
"Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma."
"Pareceu-lhe que o espelho baço e escurecido não refletia imagem alguma. Sumira por acaso a sua existência física?"
"Ela era de leve como uma idiota, só que não o era. Não sabia que era infeliz. É porque ela acreditava."
"Não fazia perguntas. Adivinhava que não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um 'não' na cara? Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim."
"Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço."
"A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava."
"Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável."
"Ela falava sim, mas era extremamente muda."
"Então defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar."
"Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser."
"E achava bom ficar triste. Não desesperada, pois isso nunca ficara já que era tão modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romãntica. Claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer. Era uma neurose que a sustentava, meu Deus, pelo menos isso: muletas (...) É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro."
"Tinha saudade de quando era pequena - (...) - e pensava que fora feliz."
"Sim, ela era alegrezinha dentro de sua neurose."
"Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser."
"A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em 'eu sou eu'. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. (...) Pensando bem: quem não é um acaso na vida?"
"Sim, quem espera sempre alcança. É?"

Carice Lispector

saída discreta pela porta dos fundos

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui."

Clarice Lispector
AL PACINO FOREVER!

domingo, 10 de outubro de 2010

Minha avó me tira da leitura. Ou melhor, grita:
- PRISCILA! FALA ALGUMA COISA! NINGUÉM SABE O QUE MUDO QUER!

luta com a comida

Baque.
Olhei para o lado e meu irmão havia acabado de enfiar um garfo inteiro no plástico duro.
Só então percebi que ele estava tentando abrir a mortadela (sim, ele AMA mortadela) com um garfo!!
pessoas, com um GARFO!!
(??)
Como ótima irmã, não movi um músclo pra ajudar ou avisar que tinha faca descartável no armário branco.
Me desculpem, mas eu queria observar aquela luta toda.
o impressionante é que... ele conseguiu!
sim, ele conseguiu cortar (rasgar) aquele plástico com os dentes do garfo, que agora já estava torto.
fiquei calada, só sorri com aquele jeito de "nossa, meu irmãozinho lindo, você conseguiu!"
ele então riu muito alto:
- Sabe o mais engraçado? A faca que eu usei era a que você ia precisar pra comer as frutas!
...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

esgotado

parece que o estoque de penicilina acabou,

pelo menos é isso que o fornecedor parece querer dizer.

sábado, 2 de outubro de 2010

"Não lamentar por momentos bons terem passado,
mas agradecer por eles terem existido."

Por que eu não consigo aprender isso?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Que foi?
Nada.
Que foi?
Não sei.
Que foi?
Vontade de nascer de novo.