domingo, 14 de agosto de 2011

children




Fui no embalo da calçada,
parei no meio da rua, de frente para a casa rosa,
a casa de Seu João
Seu João, o senhor do óculos aviador amarelado.
"Seu João morreu" - haviam dito alguns meses antes
-Seu João morreu-
depois de todas as cores que aquela casa já teve, rosa seria a última delas
ideia de Seu João, aposto.
O calor de meio-dia emanava do asfalto.
Eu gostava desse asfalto,
do embalo dos tonhonhoncs* e de me sentir pequena no meio dele.
Levantei os braços e, quando vi, já estava no balanço da música
lentamente a rodar com uma expressão engraçada no rosto.
Ridícula.
Vi a casa da Dona Alzira, tinha mudado muito,
mas o que eu vi, ainda foi a pequena e amarela casa de antes.
Vi a casa da bisavó, falecida biskavó,
toda feita de talco, eu só tinha medo de desmanchá-la;
e ela já se desmanchou.
Todos já haviam se desmanchado ou migrado,
mas estavam a girar junto comigo.
Minha avó teimosa continuava lá, até hoje, só até hoje
sem mais dias de mendigo;
sem mais "Ó o sorvete";
sem mais óculos aviador amarelado, sem mais...
sem mais muita coisa.
Pensando racionalmente não seria de todo ruim.
Levantei a cabeça, o sol sorria em cima de mim,
eu ri.
"Ta fazendo o quê?"
droga.
virei pra trás e vi aquela familiar expressão de meu irmão,
a mesma de quando ele tinha descoberto que eu ia fugir do carro verão passado,
mas essa é outra estória.
baixei os braços, olhei para a casa rosa e suspirei.
Era o meu jeito de dizer adeus.
Voltei para a calçada íngreme e finalmente respondi:
"Nada."

*quebra-molas

inspirado no texto do Vitin; http://obey-your-masters.blogspot.com/2011/06/sim-eu-ja-postei-essa-musica-mas-nesse.html 

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