terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

about being safe - Prólogo

PRÓLOGO

- Antônio

   Acordei com aquele gosto ruim na boca.
   Enrolei um pouco debaixo do lençol pra ver se ganhava mais tempo.
   Inútil, como sempre...
   Resolvi levantar logo, e procurar algo pra comer... Não tinha nada.
  Peguei as chaves, a carteira e desci pra comprar pão esquecendo de trancar a porta como sempre.
  Debaixo do bloco vi o que pareciam ser dois homens na parte gramada do prédio. Era o porteiro e seu ajudante, olhando para... a grama.
   "Bom dia."
   Não houve resposta. Normalmente era o porteiro o primeiro a dar o bom dia, minha educação sempre foi  falha em relação a dele.
   Aí ouvi um grito agudo:
   "Nããão!"
   Olhei para o jardim e através das pernas dos homens, entendi o que estavam a olhar.

   Era Camila.
.
.
.
   Corri até lá e afastei os homens. Apesar de não estarem fazendo mal algum.
   "Camila!"
   Ela olhava fixamente para o sol, sem se importar com a claridade à tona. Onde não havia tecido para cobrir sua pele, havia, com certeza, um misto onde não se distinguia o que era sujeira e o que era ferimento.
   "Camila!"
 "O senhor conhece essa mulher?" - perguntou o porteiro com ar desconfiado.
   "Sim, é minha amiga... colega."
   "Bom, então a responsabilidade é sua, agora."
   "Que responsabilidade?"
   "Aparentemente ela passou a noite inteira aqui, ou quem sabe mais... - e franziu a testa - Tentamos... removê-la daí, mas qualquer esforço foi inútil. É só chegar perto que ela grita."
   Claro...
   "Camila, olha pra mim!"
   O ajudante arriscou falar:
   "O senhor é o Dr. Antônio, não é? Ela falou algo parecido com o seu nome."
   Logo veio a repreensão do mais velho:
   "Por que não me disse isso antes, rapaz? - virou-se para mim - Me desculpe, senhor, ele é novo. Se eu soubesse disso antes, teria lhe chamado."
   "Ela falou mais alguma coisa?"
   "Sim senhor, ela ficou repetindo... algo em inglês, mas um humilde empregado como eu não..."
    O ajudante interrompeu:
   "Eu ouvi ela falando que não queria ser Majnum. Majnum, Majnum... Parece nome de marca de sabonete. Hehe"
    Logo então me lembrei do conto que Camila havia me contado entre lençóis... há... alguns anos atras.
    Ah, a Camila daquela noite...
    Apesar das olheiras e da palidez, ela formava um quadro bonito entre as folhas... a grama já parecia crescer em sua volta como se ela já fizesse parte da terra.
   Me abaixei, mas não sabia se a tocava. Em seu rosto não havia expressão alguma. Mal piscava. Estava em um mundo completamente alheio ao nosso. Um mundo lá em cima.
   "Ah, Camila..."
   Numa rapidez incrível seus olhos focaram em mim... nunca foram tão grandes. Um misto de raiva e pedido de socorro. Sim, um pouco de auto-piedade e desculpas por, imagino, estar no mundo... 
   Camila disse que não voltaria mais a aparecer em minha vida. Mas prometer qualquer coisa é insanidade, já que não sabemos o que acontecerá no futuro. O futuro, o passado... não sei qual teria machucado mais Camila.    Bom, eu fazia parte do passado, não é...
   Passei a mão em seus cabelos. Costumavam ser tão macios...
   Mas ela me olhou com ódio, sem dizer uma palavra... Parecer ser digna de pena sempre foi uma afronta para ela.

   "Camila, sou eu. Antônio."

   Uma luz invadiu seu rosto. A primeira expressão.

   "Antônio não tinha barba." - sorriu e voltou a olhar para o céu - Antônio morava na 405... 405..."
   Nesse momento, o porteiro tossiu e o aprendiz riu. Camila sabia que era dela que riam. Mas daquele mundo terreno pouco importava. Uma lágrima escorreu de seu olho esquerdo.
"Quem está triste chora com o olho esquerdo, quem está feliz chora pelo direito." 
   Foi o que ela havia me dito em uma noite feliz enquanto eu perguntava porque chorava.
   "Camila, você está na 405. Você está no meu bloco, na verdade."
   Ela uniu as sobrancelhas do jeito que fazia quando parecia confusa e finalmente resolveu se levantar.
   "Mas o que..."
   Olhou incrédula em volta. As mesmas palmeiras haviam crescido um pouco, mas estavam no mesmo lugar de sempre, é claro.
   Camila ficou vermelha, olhou para baixo e, sem graça, tentou soltar minha mão:
   "Eu só queria... - piscou para clarear a mente - eu só queria que a terra me engolisse."




   (Os dois homens atrás de mim se afastaram com medo do que camila poderia ser. Ou ter.
   Eu não me afastei. 
   Pelo contrário, apertei minha mão ainda mais forte e a ajudei a se levantar.
   Ela cambaleou dois passos e caiu em cima de mim.
   Desmaiou.
   Foi então que o rapaz mais novo disse:
   "Ih, doutor, deve ser aquela coisa que a gente sente quando levanta rápido."
   Segurei-a no colo para levá-la ao apartamento e respondi:
   "É, acontece.")






‘The beloved is all in all, the lover only veils him. The beloved is all that lives, the lover a dead thing.

Leilah e Majnum 

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