Abriu a gaveta, pegou a escova e começou a se pentear.
Era essa a sua rotina matinal.
As cerdas preparavam-na para as surpresas do dia-a-dia, ou, em caso pior, a falta delas.
Antigamente não tinha paciência com os fios, arrancava-os com muita força, mas depois descobriu como é bom sentir as cerdas em sua cabeça.
O propósito daquilo nunca fora o de deixar os cabelos bonitos, afinal, isso seria impossível. Sua mania nervosa de passar a mão pelas madeixas o impedia de ficar no lugar.
Irregular. Ela até gostava.
Aí lembrou. Foi bom.
...
Nem percebeu, como sempre.
Se olhou no espelho e viu um sorriso, sorriso bobo. Percepção tardia.
O reflexo logo se obscureceu e disse:
-- Tire esse sorriso idiota da cara. Você é mais forte que isso.
Inspirou profundamente, deixou a escova de volta à gaveta e saiu repetindo para si mesma, "Sorriso idiota." - também como uma rotina.
E então ia toda adulta dizendo que podia esquecer.
Mas não podia
- ela sabia, não queria.
sábado, 27 de agosto de 2011
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
ainda Ditadura?
A criminalização do artista - Como se fabricam marginais em nosso país:
http://vimeo.com/27659191
por Rafael Lage
http://vimeo.com/27659191
por Rafael Lage
Pra complementar:
Praça Sete Sitiada - Parte I - "Quem é o Ladrão?"
Praça Sete Sitiada - Parte II - "O artista subjugado"
domingo, 14 de agosto de 2011
children
Fui no embalo da calçada,
parei no meio da rua, de frente para a casa rosa,
a casa de Seu João
Seu João, o senhor do óculos aviador amarelado.
"Seu João morreu" - haviam dito alguns meses antes
-Seu João morreu-
depois de todas as cores que aquela casa já teve, rosa seria a última delas
ideia de Seu João, aposto.
O calor de meio-dia emanava do asfalto.
Eu gostava desse asfalto,
do embalo dos tonhonhoncs* e de me sentir pequena no meio dele.
Levantei os braços e, quando vi, já estava no balanço da música
lentamente a rodar com uma expressão engraçada no rosto.
Ridícula.
Vi a casa da Dona Alzira, tinha mudado muito,
mas o que eu vi, ainda foi a pequena e amarela casa de antes.
Vi a casa da bisavó, falecida biskavó,
toda feita de talco, eu só tinha medo de desmanchá-la;
e ela já se desmanchou.
Todos já haviam se desmanchado ou migrado,
mas estavam a girar junto comigo.
Minha avó teimosa continuava lá, até hoje, só até hoje
sem mais dias de mendigo;
sem mais "Ó o sorvete";
sem mais óculos aviador amarelado, sem mais...
sem mais muita coisa.
Pensando racionalmente não seria de todo ruim.
Levantei a cabeça, o sol sorria em cima de mim,
eu ri.
"Ta fazendo o quê?"
droga.
virei pra trás e vi aquela familiar expressão de meu irmão,
a mesma de quando ele tinha descoberto que eu ia fugir do carro verão passado,
mas essa é outra estória.
baixei os braços, olhei para a casa rosa e suspirei.
Era o meu jeito de dizer adeus.
Voltei para a calçada íngreme e finalmente respondi:
"Nada."
*quebra-molas
inspirado no texto do Vitin; http://obey-your-masters.blogspot.com/2011/06/sim-eu-ja-postei-essa-musica-mas-nesse.html
a casa de Seu João
Seu João, o senhor do óculos aviador amarelado.
"Seu João morreu" - haviam dito alguns meses antes
-Seu João morreu-
depois de todas as cores que aquela casa já teve, rosa seria a última delas
ideia de Seu João, aposto.
O calor de meio-dia emanava do asfalto.
Eu gostava desse asfalto,
do embalo dos tonhonhoncs* e de me sentir pequena no meio dele.
Levantei os braços e, quando vi, já estava no balanço da música
lentamente a rodar com uma expressão engraçada no rosto.
Ridícula.
Vi a casa da Dona Alzira, tinha mudado muito,
mas o que eu vi, ainda foi a pequena e amarela casa de antes.
Vi a casa da bisavó, falecida biskavó,
toda feita de talco, eu só tinha medo de desmanchá-la;
e ela já se desmanchou.
Todos já haviam se desmanchado ou migrado,
mas estavam a girar junto comigo.
Minha avó teimosa continuava lá, até hoje, só até hoje
sem mais dias de mendigo;
sem mais "Ó o sorvete";
sem mais óculos aviador amarelado, sem mais...
sem mais muita coisa.
Pensando racionalmente não seria de todo ruim.
Levantei a cabeça, o sol sorria em cima de mim,
eu ri.
"Ta fazendo o quê?"
droga.
virei pra trás e vi aquela familiar expressão de meu irmão,
a mesma de quando ele tinha descoberto que eu ia fugir do carro verão passado,
mas essa é outra estória.
baixei os braços, olhei para a casa rosa e suspirei.
Era o meu jeito de dizer adeus.
Voltei para a calçada íngreme e finalmente respondi:
"Nada."
*quebra-molas
inspirado no texto do Vitin; http://obey-your-masters.blogspot.com/2011/06/sim-eu-ja-postei-essa-musica-mas-nesse.html
O Êxtase de Santa Teresa
O Êxtase de Santa Teresa - Gian Lorenzo Bernini
Mármore, 11,6x3,5 m. Período do Barroco, começo do séc. XVII
Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma
Mármore, 11,6x3,5 m. Período do Barroco, começo do séc. XVII
Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma
"Nesta visão quis o Senhor que o visse assim: não era grande, mas pequeno, formoso em extremo, o rosto tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem todos se abrasam. Devem ser os que se chamam Querubins, que os nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire, nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor corporal, mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte, e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus, que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto."
(extraído dos escritos de Santa Teresa)
"Já passavam largas horas desde que Teresa assistiu o pôr do sol no topo da torre oeste do mosteiro de S. Euclides na Áustria. Ela repetia esse ritual todos os dias fugindo às constantes chamadas da Madre que anunciava que estava na hora do jantar. Todos os dias, Teresa, se encantava com o maravilhoso espectáculo de cores proporcionado pela perfeita junção da grandiosa esfera celeste, com os longos prados de flores, com as suas cores a brilhar em tal uníssono que, a ver dela, só podia ser atribuído a um acto divino. Mas, já à algum tempo, ela sentia-se estranha, um certo vazio. Apesar de rodeada por toda aquela beleza, algo na sua escolha de servir o Senhor e dedicar todo o resto da sua vida mortal a Ele, purificando-se para ser a sua esposa perfeita, não a estava a agradar, o vazio crescia a cada dia que passava, mas naquele dia, naquele dia tinha sido diferente como que um prenunciar do que lhe iria acontecer.
Teresa encontrava-se no seu quarto, já tinha tratado das suas preces e foi um pouco à janela pedir inspiração para os seus sonhos às estrelas que iluminavam o céu celeste. Não à Lua, pois essa tinha desaparecido, há dias que vinha a ser engolida pelo vazio da escuridão, apesar de tudo, Teresa sabia que a Lua apenas estava noutro lado, e que hoje era dia de Lua Nova, um novo começo, o vazio tinha atingido o seu limite, estava na hora de se encher. E com este pensamento Teresa deitou-se, cerrando os olhos, continuando a pressentir que algo iria acontecer.
Para um mero viajante, ver um mosteiro daqueles no meio de um prado tão longínquo era algo estranho, no entanto, devido à sua fama era rapidamente ignorado. Não por ter má fama, mas por simplesmente ser um dado garantido, a menos que precisasse de um sítio para passar a noite nenhum viajante lhe daria grande importância. Mas tudo isso iria mudar depois desta noite.
Já passava pouco das 3:00, todo o mosteiro estava silencioso, todos dormiam, até Teresa, estava profundamente num sonho onde via um mundo estranho governado por cavalos de metal com rodas e cheio de gigantes cubos de vidro, mas no meio disto tudo, sentiu uma vontade de acordar. Ao abrir os olhos, viu que todo o seu quarto estava iluminado, como se de dia fosse, ignorou essa primeira impressão, até que a ideia lhe atingiu o mais profundo do seu subconsciente, e ela levantou-se da cama. À sua frente, a imagem que mudou toda a sua vida e com ela a história do mosteiro de S. Euclides.
- Teresa... - disse-lhe a voz do ser iluminado que lhe aparecia à frente.
- Chegou a minha hora senhor?
- Não, venho aqui para encher o teu vazio, já o tens sentido à algum tempo. Deus ouviu as tuas preces e encarregou-se de me enviar para te ajudar.
Teresa, um pouco incrédula com a situação, esfregou os olhos para tentar acordar daquilo que só podia ser um sonho, mas não resultou, o ser iluminado ainda se encontrava à sua frente.
- E como pensas encher o meu vazio?
- Deus entregou-me esta lança para que possa satisfazer o teu mais eterno desejo.
Teresa não sabia o que pensar, só quis fechar os olhos e rezar, e entregar-se à sua morte. O Anjo, apontou para o seu ventre, e lançou a lança. Contudo, Teresa não sentiu o seu ventre a ser trespassado mas sim a sua zona sagrada, que reservara toda a sua vida para servir Deus quando o momento fosse o certo. A sua primeira ideia foi que a sua santidade e pureza estava a ser violada, mas por um servo do seu Senhor, a seu pedido, tal como ele lhe tinha dito, para satisfazer os seus desejos mais íntimos. E quando finalmente se apercebeu, reparou que esses desejos estavam a ser mesmo realizados. O acto durou algum tempo, e no fim ela sentia-se como que rejuvenescida, o seu vazio tinha sido preenchido, e logo por um ser iluminado, um Anjo, um servo do seu Deus. Ela levantou-se para o agradecer, mas já ele tinha partido, então deitou-se e deixou-se adormecer.
Na manhã seguinte, Teresa contou o seu encontro à Madre, que duvidando o sucedido decidiu viajar com ela até ao Vaticano para poder confidenciar o "milagre" a alguém capaz de o compreender. O êxtase de Santa Teresa, tornou-se um dos contos obscuros escondidos pela Igreja. Bernini revelou-o numa escultura, aquela que acompanha este artigo, e agora eu revelo-a a vocês, embora com muitos dados alterados pelo bem da ficção, esta história conta na sua mais pura semelhança o encontro de Santa Teresa com o Anjo que mudou a sua vida e encheu o seu vazio."
http://portraitsofme.blogspot.com/2007/01/o-xtase-de-santa-teresa.html
sábado, 13 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
e os bares?
"Querem acabar com a nossa solidão"
"Não quero fazer estardalhaço, mas não há como evitar esse sermão: em nome da disputa por espaço, a cada dia um novo braço perde o seu apoio no balcão. Fruto do descaso dos patrões que baniram dos salões o lugar ideal para veladas confissões.
A cada novo bar lançado, a ordem é colocar de lado quem não tem vergonha de beber calado. Mesmo que seja famigerado, de coração alado, talvez um ser apaixonado.Mas não sabem tais senhores originais que tal atitude descabida tira a bebida das almas sem medida que, de costas para a vida, têm direito aos mesmos pecados capitais.Matar o balcão, senhor patrão, é um atentado aos desacompanhados. É como entregar de bandeja o nosso muro de lamentações a quem deseja alheias privações. Não se pode mais estar sozinho, em desalinho num bar sem ter de esnobar as gentilezas, olha só quanta destreza, que pululam sobre as mesas ao lado.Malvado, esses patrões. Querem nos dar conforto, comandas e afins, mas esquecem que o porto seguro de qualquer botequim é o balcão desconfortável que nos tira do confim.Enfim, não se pode nem mais achar graça, rir até mesmo da desgraça, sem ter de dar o ar da graça, assim, gratuitamente, para quem quer estiver naquela praça. Porque é sabido desde os tempos de Noel que Candeia era Nobel em beber sem ter cadeira.É naquele banquinho que os verdadeiros boêmios, os exímios bebedores da noite, se sentem mais à vontade. É também ali, naquele pedacinho de mau caminho talhado em madeira, o único lugar do bar em que ninguém costuma dar bandeira.Sem balcão, senhor patrão, não haverá outro lugar para suportar o peso de nossos cotovelos e angústias. Sem balcão, senhor patrão, não haverá conserva que dê conta do espaço que (des)conserva o nosso corpo.Sem balcão, senhor patrão, os bares não serão mais a meca de nossas solidões. Mas, como me alertou um amigo engarrafado, um cara que nunca se fez de arrogado, há muito bar por aí que ainda não foi condenado. Talvez, se procurarmos com a minúcia de um arqueólogo, logo encontraremos um logradouro duradouro, com a alma de ouro e, claro, com os seus balcões servindo de legítimas ilhas para nos tirar desse naufrágio. Eis aqui o meu sufrágio."
terça-feira, 2 de agosto de 2011
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
antes da hora
E depois da longa conversa - mal sabia ele que se tratava da última - o Doutor levanta, consulta o relógio de bolso e diz:
- O Senhor quer uma solução definitiva para seus problemas?
Morra.
.
.
.
A vida é um problema, meu caro.
Esperar morrer pode ser perda de tempo.
E saiu assim apressado de seu escritório ainda olhando para o relógio dourado em suas mãos.
- O Senhor quer uma solução definitiva para seus problemas?
Morra.
.
.
.
A vida é um problema, meu caro.
Esperar morrer pode ser perda de tempo.
E saiu assim apressado de seu escritório ainda olhando para o relógio dourado em suas mãos.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
quinta-feira, 21 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
lunares
Como eu disse, saudades ia sentir,
fica bem.
¹ demillus para segurar seus mamilos (Y)
saudades das nossas luas,
dos nossos di-luas,
dos nossos celulares transformados em microfones,
das nossas vontades, ansiedades,
das aulas que não acabavam mais,
dos nossos almoços, "Finalmente almoço!"
dos nossos olhares telepáticos e subliminares,
das nossas sextas intermináveis, ah, as sextas...
dos nossos olhos brilhantes ou molhados,
das nossas ilusões bobas entre ELE e ELA,
das nossas ilusões bobas entre ELE e ELA,
dos nossos abraços, das nossas confissões, dos nossos segredos,
das nossas promessas...
das piadas idiotas que só a gente sabia¹
das nossas conversas psicológicas e psicodélicas,
das nossas conversas psicológicas e psicodélicas,
das nossas discussões bipolares,
lunares...
lunares...
fica bem.
¹ demillus para segurar seus mamilos (Y)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
a nossa atualidade
"Não se trata apenas de uma época de rápidas e profundas mudanças sociais, mas de povos e nações emergentes, de tempos sociológicos profundamente distintos, de desigualdades não amenizadas pela tecnologia avançada: época em que se tem consciência dos contrastes, em que o homem reflete sobre o seu conhecimento científico e sua responsabilidade perante a vida e tudo oscila sobre um sutil limite entre o desastre e a esperança."
-Waldisa Rússio Guarnieri
-Waldisa Rússio Guarnieri
segunda-feira, 4 de julho de 2011
lixo não some
Tolice é pensar que se pode apagar o que já se foi... que como a fênix, podemos renascer das cinzas.
Mas aí é que está: lembre-se das cinzas, elas não somem. Elas formam a nova fênix.
Lixo não some.
se vou continuar a poluir?
bom,
enquanto estiver viva vou continuar produzindo meu lixo, assim como você.
...
(três pontinhos pra fechar, sr. smurf ;)
Mas aí é que está: lembre-se das cinzas, elas não somem. Elas formam a nova fênix.
Lixo não some.
se vou continuar a poluir?
bom,
enquanto estiver viva vou continuar produzindo meu lixo, assim como você.
...
(três pontinhos pra fechar, sr. smurf ;)
segunda-feira, 23 de maio de 2011
meu lixo
"Mas por que temos necessidade de publicar na internet tudo o que fazemos, inclusive com quem nos relacionamos e quais lugares frequentamos? Não devería nossa vida particular estar reservada a um seleto grupo de amigos? Para o psicólogo Fauzi Mansur, as pessoas simplesmente querem atenção. 'Não conseguimos guardar segredos porque queremos parecer importantes, sedutores e interessantes aos olhos de outros. E se eu escolho você como confidente, em algum momento da relação também serei escolhido para ouvir algum segredo seu', reflete."
Correio Brasiliense, 22/5/2011 (sim, eu leio jornal ¬¬')
...
Cada um com seu pacote de lixo.
É a primeira vez que se falam.
(...)
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-lo. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?"
(...)
Luis Fernando Veríssimo - O lixo no livro
Então é isso...
Vou apagar esse lixo.
Aproveitem os últimos dias do caderno interno (antigo oscilando, como me lembrou o Sr. Sbrabues ;) )
ou então, para os que disseram "finalmente" com um suspiro de alívio, me ajudem na contagem regressiva. ><...um saco, falar sozinha...
sexta-feira, 20 de maio de 2011
roxo
e foi ficando tonta, tonta, tonta, ia desmaiar, com certeza.
A não ser... a não ser que conseguisse água gelada ali por perto... não para beber, para jogar na cara mesmo-sempre dava certo.
Procurou febrilmente por qualquer fonte que fosse, a cabeça pesada não ajudava.
até que achou...
Uma ducha velha certamente serviria, o problema seria a torneira enferrujada.
Sem se importar com os idiotas da churrasqueira atravessou o campo escuro, sua figura cambaleante se tornaria transparente em meio aos bêbados.
Alcançou o perímetro da ducha como quem alcança a linha de chegada, e, com toda a força que ainda lhe restava, girou. Ou pelo menos tentou girar.
Já podia sentir o zumbido nos ouvidos, que infelizmente não era o chiado da água.
Tentou de novo. De novo. Não havia sinal algum de que a torneira iria ceder.
não tens misericórdia, torneira?
nenhuma gota, nada.
com a visão turva olhou para as estrelas suplicando que algum milagre acontecesse. Pareciam até estrelas cadentes, de tanto que se moviam.
por fim o último fôlego escapou de seus brancos lábios.
...
Frio.
Gelo caindo do céu, só podia ser.
A dor foi descendo da nuca à cintura, seguindo o delineado de sua coluna, cada vértebra recebendo seu choque.
Ouvidos destampados, agora - alguém devia ter baixado o volume do zumbido. Pálpebras pesadas... tão pesadas. Só conseguiu entreabrir os olhos. Viu algo que não podia discernir.
O vermelho líquido dançava entre seus dedos e corria pelo ralo.
Naquela altura já não sabia o que era água, sangue e tinta de cabelo barata.
Lembrou-se do ferimento. De repente o vermelho não era mais tão fora do lugar.
Tentou levantar a cabeça. Não conseguia. Parecia pesar 30 quilos.
Mas viu um par de tênis verdes surrados ao seu lado,
só então entendeu que sua cabeça estava recostada de lado, não olhava para a frente.
sentiu uma mão grande em sua testa. Grande mas macia.
ousou mover a cabeça mais uma vez e então viu:
azul, agora era tudo azul.
"olhos mais azuis do que os de minha mãe", pensou.
sentiu desvanecer e tudo ficou preto novamente.
A não ser... a não ser que conseguisse água gelada ali por perto... não para beber, para jogar na cara mesmo-sempre dava certo.
Procurou febrilmente por qualquer fonte que fosse, a cabeça pesada não ajudava.
até que achou...
Uma ducha velha certamente serviria, o problema seria a torneira enferrujada.
Sem se importar com os idiotas da churrasqueira atravessou o campo escuro, sua figura cambaleante se tornaria transparente em meio aos bêbados.
Alcançou o perímetro da ducha como quem alcança a linha de chegada, e, com toda a força que ainda lhe restava, girou. Ou pelo menos tentou girar.
Já podia sentir o zumbido nos ouvidos, que infelizmente não era o chiado da água.
Tentou de novo. De novo. Não havia sinal algum de que a torneira iria ceder.
não tens misericórdia, torneira?
nenhuma gota, nada.
com a visão turva olhou para as estrelas suplicando que algum milagre acontecesse. Pareciam até estrelas cadentes, de tanto que se moviam.
por fim o último fôlego escapou de seus brancos lábios.
...
Frio.
Gelo caindo do céu, só podia ser.
A dor foi descendo da nuca à cintura, seguindo o delineado de sua coluna, cada vértebra recebendo seu choque.
Ouvidos destampados, agora - alguém devia ter baixado o volume do zumbido. Pálpebras pesadas... tão pesadas. Só conseguiu entreabrir os olhos. Viu algo que não podia discernir.
O vermelho líquido dançava entre seus dedos e corria pelo ralo.
Naquela altura já não sabia o que era água, sangue e tinta de cabelo barata.
Lembrou-se do ferimento. De repente o vermelho não era mais tão fora do lugar.
Tentou levantar a cabeça. Não conseguia. Parecia pesar 30 quilos.
Mas viu um par de tênis verdes surrados ao seu lado,
só então entendeu que sua cabeça estava recostada de lado, não olhava para a frente.
sentiu uma mão grande em sua testa. Grande mas macia.
ousou mover a cabeça mais uma vez e então viu:
azul, agora era tudo azul.
"olhos mais azuis do que os de minha mãe", pensou.
sentiu desvanecer e tudo ficou preto novamente.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
melhor post da blogosfera
"nada é nada
nenhuma coisa é nada
mas se nada é alguma coisa ele deixa de ser "nada" e passa a ter significado
então nenhuma coisa é nada
nada não existe
ou nada existe?"
nenhuma coisa é nada
mas se nada é alguma coisa ele deixa de ser "nada" e passa a ter significado
então nenhuma coisa é nada
nada não existe
ou nada existe?"
post de autoria e dedicado ao nosso ilustríssimo Sr. Sbrabues.
domingo, 1 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
Revigorante??? WTF!
π: E eu devo ter ficado com aquele olhar de "quero matar alguém" quando na verdade tava com raiva era de mim mesma... Mas é isso que vocês fazem, não é? O objetivo na vida de um cara é pegar um número tão absurdo de mulheres que no final da vida ele não consiga mais contar nos dedos.
Depois dessa, não consegui mais me concentrar nas promoções coloridas, me rendi logo ao assunto da conversa:
B: Depende... Eu acho que você merece um cara que goste muito de você e que queira só você. Nada menos que isso.
π: Mas... mas todo mundo merece isso. Ou eu to sendo ingênua demais? Pra não dizer burra...
B: É, você ta sendo um pouquinho ingênua sim, mas isso é normal, entende? Você, mais que qualquer pessoa que eu conheçi, merece alguém que queira você e mais ninguém e que goste de você de verdade.
π: Obrigada, isso é.... revigorante. Uh, acho que não é essa a palavra.
De repente, a garota me lançou um olhar inquisitivo. A expressão que eu fazia enquanto ouvia deve ter me delatado. Voltei a correr os olhos pelo encarte do supermercado, como se pedisse desculpas pelo erro.
Depois dessa, não consegui mais me concentrar nas promoções coloridas, me rendi logo ao assunto da conversa:
B: Depende... Eu acho que você merece um cara que goste muito de você e que queira só você. Nada menos que isso.
π: Mas... mas todo mundo merece isso. Ou eu to sendo ingênua demais? Pra não dizer burra...
B: É, você ta sendo um pouquinho ingênua sim, mas isso é normal, entende? Você, mais que qualquer pessoa que eu conheçi, merece alguém que queira você e mais ninguém e que goste de você de verdade.
π: Obrigada, isso é.... revigorante. Uh, acho que não é essa a palavra.
De repente, a garota me lançou um olhar inquisitivo. A expressão que eu fazia enquanto ouvia deve ter me delatado. Voltei a correr os olhos pelo encarte do supermercado, como se pedisse desculpas pelo erro.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
"E é nas débeis palavras que minha consciência repõe a forma que se estabiliza."
"Às vezes me perguntam por que eu escrevo. Eu poderia responder a verdade para elas, com simples palavras em sentenças já formadas por mim mesmo devido às inúmeras vezes de que tive de me convencer de que isso era o melhor para mim; mas, quando converso com as pessoas, eu posso ver nos olhos delas o que elas realmente querem saber com uma pergunta, e eu posso lhe garantir: algumas perguntas não são feitas para receberem a verdade - e pior: algumas pouco querem uma resposta. A vida é estressante, sabe? Ela cobra coisas que ainda não “deu”, ela te expõe a situações que você nem se interessa, ela te sobrecarrega com cargas que até você sabe que não consegue suportar. Desse jeito, todos precisam de uma válvula de escape. Todos têm uma válvula de escape. E é nas débeis palavras que minha consciência repõe a forma que se estabiliza. Primeiramente tudo era posto em papéis pessoais que serviam para ninguém além de mim mesmo, como cicatrizes que somos obrigados a cultivar com uma espécie de amor e ódio, que, mesmo nos trazendo aquele gosto masoquista de vitória na mente, nos remetem um tempo de dificuldade, tempo de fraqueza; e para o mundo, as fraquezas são fontes apetitosas para novos problemas. Isso nos gera medo. Ridículo, não? Como podemos conquistar algo que iremos temer depois? Aliás, como podemos temer algo que ainda não apareceu? Aos poucos, nós acabamos nos dando a liberdade de expor nossas cicatrizes ao sol e aos outros, tendo cuidado para não piorar sua situação. Eu escrevo coisas que não consigo pensar. Os pensamentos são tão rápidos e os assuntos às vezes tão delicados. Algumas coisas precisam de um tempo para se estabilizarem.
Sempre achei a dor uma coisa muito pessoal, algo que servisse apenas para mim. Bem, talvez sirva apenas para mim afinal, mas nunca pensei que mostrar ao mundo as marcas que ela me deixou, fosse trazer às pessoas a mesma sensação, o mesmo sentimento… e até as lágrimas que me causou. Nunca pensei que minha dor fosse fazer alguém chorar. Nunca pensei que meu sofrimento fosse um dia dar sinal de que seria compreendido. E eu não me importo mais com o mau uso que alguns fazem com a relação entre texto-sentimento, não me importo mais com os julgamentos que fazem com minha escrita, não me importo mais com os pensamentos errados que surgem quando alguns leem o resultado da dor que de mim saiu. Eu não me importo com nada que não seja meu desabafo. Enquanto o mundo me fizer sofrer, minhas decisões continuarem sendo falhas, amizades acabando por causa de bolhas opacas e máscaras mal-colocadas, eu irei sentir dor, e minha vida é muito pequena para suportar tudo. Que as páginas fiquem feias com as rasuras e a tecla de espaço tenha que ser batida com mais força para inserir o pedido, minha dor sairá de mim em formas de palavras. Então, se voltarem a me perguntar por que escrevo, só terei uma coisa a falar - para alguns pode não ser suficiente, mas para mim é o necessário: eu escrevo porque sofro.
Sem muito drama, você percebe que sofrer é muito além do que alguém querendo ver você para baixo. Sofrimento é a palavra que alguns colocaram para “pausa para descanso”. Sofrer nada mais é que uma aviso de “descanse para tomar uma nova escolha”. Sofrer é ganhar a oportunidade de girar a moeda mais exata da vida, e, claro, nela só se tem duas opções: sim ou não. Nenhuma dessas opções é a errada. Você só tem que escolher uma e tentar fazer dar certo o caminho que resolveu trilhar. Alguns pegam essa pausa para descanso e simplesmente desistem. Outras estragam o próprio destino por não saber o que fazer. Algumas pessoas sorriem e relevam tudo o que passaram.
Eu - antes de jogar a moeda e ver para que lado tenho que trilhar - meus caros, escrevo."
- Aleex Zalach
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