quarta-feira, 7 de julho de 2010

de praxe II

A filha ouve os conhecidos passos chegando até seu quarto. Já se preparando para as repetitivas respostas que viria a dar. Que pena, logo na melhor parte do livro..
"Mulher, a nossa filha não veio pra casa hoje não?" a voz estridente grita do corredor.
A mãe responde do outro quarto "Ela ta aí!"
O pai, nem sequer parou para ouvir o que sua mulher dizia "ela almoçou no colégio? FILHA!"
A filha responde como se sua voz estivesse se encolhendo "to aqui, pai"
O pai entra no quarto, olha para o livro e diz "você ta lendo esse livro de novo? é o mesmo, né? ainda bem que a minha filha gosta de ler"
Mal sabe ele que aquele tipo de literatura... não é lá muito boa pra racionalidade humana
O pai olha longamente para a filha... que já esperava essa parte do discurso
"eeeita filha, mas ta cheia de espinha"
A filha continua a olhar para o livro, como se conseguisse voltar às palavras de onde havia parado.
"sua mãe já te levou no médico de..?"
A seguinte conversa sempre se repetia, todos os dias que eles se encontravam:
("não"
"NÃO?? e vai levar quando?"
"não sei"
"já marcou?"
"já"
"fala pra ela te levar, você já ta toda estourada")
mas nesse dia, a resposta foi diferente:
"já"
"e o que ela disse?"
"não é da sua conta"
"claro que é, eu sou seu pai..."
A mãe que ouvia tudo grita do outro quarto "Homem, isso é coisa de mulher!"
O pai, fingindo que não tinha ouvido, continua "a médica ligou assustada dizendo que seus hormônios tavam muito altos no último exame, mais altos que o normal.."
o outro filho entra no quarto pra pedir permissão para...
a filha explode "PAI, EU NÃO TO GRÁVIDA!"
...
Saiu, finalmente. Não aguentava mais essa lenga lenga.
O pai fica paralisado. O outro filho, que entrara na hora errada, permanece de cabeça baixa. A mãe fica quieta no outro quarto.
A filha, olha pra baixo ainda vermelha e gagueja "... se.. é isso que você quer saber.."
... silêncio constrangedor
O filho sai do quarto.
O pai levanta a cabeça, ainda de olhos arregalados olha para a filha e sai do quarto. O episódio fora desnecessário.
A filha enfia a cabeça no travesseiro e pensa "não, não era isso que ele queria saber.."
E fica o resto do tempo pensando em qual seria a próxima observação/alegação/motivo que o pai inventaria para ter sua atenção.
Mas isso já era de praxe

Um comentário:

  1. WOW!Otima narrativa Pri, pude imaginar a cena todinha. Mas isso já é de praxe =]

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